especial impressa

407 anos: do antigo ao moderno

“Teu início foi Utu-Guaçu,
Que Fernandes fundou para a glória
De tornar-se a cidade de Itu
Fidelíssima, berço da História!”

Por Lilian Sartorio
Este trecho do Hino de Itu representa a cidade em sua essência. Classificada como ‘Berço da República’ – e também da história – o centro do município carrega em suas ruas lembranças de tempos transformadores. Na sexta edição da Revista Singular contamos fatos muitas vezes desconhecidos por diversos cidadãos (acesse aqui: https://issuu.com/revistasingular/docs/edicao-6 ), englobando desde sua descoberta, em 1610 – pelo bandeirante Domingos Fernandes – até projetos de urbanização  e monumentos religiosos. Nestes 407 anos, no entanto, lançamos um olhar à requalificação dos edifícios que fizeram parte tanto de um passado antigo como de um passado recente, mesclando com a atualidade.

A industrialização é a base para esta matéria. Este movimento fez com que Itu recebesse duas grandes tecelagens: a Fábrica São Luiz e a Fábrica São Pedro. Para contextualizar, a linha do tempo abaixo elaborada com auxílio do trabalho de pesquisa da arquiteta ituana Helena Gatti, denominado “A ‘São Pedro’ em tom de cidade” dá um panorama da movimentação ocorrida em Itu desde sua fundação até o tombamento de ambas as indústrias. Suas respectivas reutilizações sociais são atributos que concernem à cidade charme e contraste entre o antigo e o moderno. Conheça as histórias:


Fábrica São Luiz


Fundada em 1869, a Fábrica de Tecidos São Luiz foi a primeira indústria a vapor do Estado de São Paulo e a segunda do país. Quando iniciou a produção de tecidos de algodão no Brasil, a São Luiz era uma pequena fábrica com 24 teares e 1.000 fusos. A fábrica foi ampliada no final do século, com o projeto do engenheiro Artur Sterry, da Companhia de Estradas de Ferro. Suas máquinas vieram dos Estados Unidos e o complexo da caldeira da Inglaterra. A fábrica foi edificada em três períodos distintos. A parte mais antiga fica ao lado da Igreja do Bom Jesus. A segunda a ser construída, com os arcos é onde se encontra a Academia Fábrica e o Supermercado Dia. A terceira fase, em estilo manchesteriano, foi feita com tijolos aparentes aos moldes das construções inglesas da era industrial e é, hoje, o local onde está o Poupatempo.  A Fábrica contava com consultório médico e dentário para os funcionários e creche para os filhos, posto que 70% de sua mão de obra era essencialmente feminina.  O Almanaque da Província de São Paulo para 1873 traz mais detalhadamente as condições em que se realizava o trabalho: 52 pessoas, sendo 24 mulheres, 10 homens e 18 meninos, todos operários brasileiros e que não eram escravos.

A São Luiz produzia “algodão grosso da terra” destinado principalmente às roupas de escravos, trabalhadores na agricultura e para o ensacamento do sal, em Santos. Ela foi projetada também para que futuramente fossem produzidos tecidos finos.   O algodão era classificado como de qualidade e grande durabilidade , pelo “bem torcido dos fios”, e também acessível aos fazendeiros. A quantidade daqueles produtos e a sua projeção junto ao mercado consumidor, levaram alguns a promoverem uma falsificação  através da impressão daquela marca em outras peças de panos, que eram encontradas sobretudo em estabelecimentos de Campinas. A comercialização do pano de algodão era feita numa grande extensão territorial, abrangendo não só a cidade de Itu, onde era vendido à porta daquela fábrica, como também em Campinas e Rio Claro. Ao mesmo tempo sofria a concorrência de mercadorias semelhantes, vindas da fábrica de Santo Aleixo e de Minas Gerais.

Em janeiro de 1888, a fábrica foi vendida ao Sr. Paulino Pacheco Jordão, perdurando sua propriedade, na mesma família, desde então. A Fábrica de Tecidos São Luiz funcionou ininterruptamente até o ano de 1982, quando encerrou suas atividades ante a impossibilidade de se dar continuidade à indústria a vapor.

São Luiz hoje – Patrimônio Histórico tombado pelo CONDEPHHAT e IPHAN, o prédio vem sendo restaurado pelos proprietários, com aprovação daqueles Órgãos, desde 1997. Além dos já mencionados locais que utilizam as dependências (Fábrica Academia, Supermercado Dia e Poupatempo), funciona na primeira parte do local, com entrada na rua Paula Souza, um salão que abriga bazares, feiras festas e que também pode ser locado para eventos particulares. A Fábrica São Luiz é aberta a visitantes e conserva, além da estrutura original, maquinários da época da tecelagem: um verdadeiro mergulho na história industrial brasileira.

Como parte da requalificação do local, funciona em sua estrutura um bar temático com música ao vivo, uma fábrica de carrinho de rolimã em madeira, uma louçaria que trabalha com aluguel de artigos para eventos. Ainda há, no local, espaços disponíveis para  locação com fins comerciais.


Fábrica São Pedro


Visto o progresso da Fábrica São Luiz e diante da inauguração da Companhia Ytuana de Estradas de Ferro, a Companhia de Fiação e Tecelagem São Pedro foi inaugurada no mês de agosto de 1910. Em pouco tempo, sua produção se destacava e, em 1912, já operava com mais de 150 teares. A Fábrica tomava conta de grande parte da área central da cidade já que, além da parte de produção de tecidos – localizada na Rua Graciano Geribello – a São Pedro contava com o setor de fiação, que fica onde hoje está instalada a empresa Fidelity; com uma creche, onde funciona o Colégio Forte Castelo e a vila operária, conhecida hoje como Bairro Alto, onde haviam 120 casas para operários. No ano anterior, a Usina Hidrelétrica São Pedro foi especialmente construída sobre o rio Tietê para alimentar a fábrica, além das fazendas da região e a cidade de Cabreúva/SP. Em 1925 esta usina passou a abastecer também a vila operária.

Moldou-se, então, toda uma estrutura urbanística ao redor da indústria, onde as famílias inteiras saiam da área rural e viviam para a fábrica. A profissão era passada de pai para filho. Os padrões arquitetônicos das residências podem ser considerados simples, porém caracterizava uma vila e todo um histórico de crescimento da cidade em si. A fábrica chegou a contar com 2 mil operários e foi a que mais empregou no município nesse setor. Mas os problemas financeiros ficaram evidentes na década de 80, com atrasos nos salários, ações trabalhistas e cíveis. Em 1990 suas atividades foram encerradas.

São Pedro hoje – Após longo tempo sem prospecção de desenvolvimento, nos últimos anos a Fábrica se abriu para novas atividades. Além da Fidelity na fiação, no setor produtivo instalaram-se atividades variadas, como academias de ginástica, igrejas e até mesmo um galpão utilizado para exposições e atividades culturais. Ainda há espaços para serem aproveitados e a ideia é que, cada vez mais, a importância de Itu na área têxtil seja conhecida e seus prédios visitados.


Ituano Clube


Apesar de não fazer parte do contexto têxtil, o Ituano Clube está inserido em requalificação. No mês de janeiro, correu nas redes sociais um vídeo do ano de 1998 com cenas de uma comemoração de carnaval. Tal mídia gerou certo saudosismo em quem se viu ou encontrou conhecidos que fizeram parte daquele momento. O que muitos não sabem é que o Ituano Clube foi requalificado no ano passado. Apesar de não mais funcionar como uma boate, devido às novas exigências de acessibilidade e nível de decibéis sonoros. Funciona hoje, no local, a Secretaria de Turismo e um espaço de turismo e cultura. Apenas o andar inferior está sendo utilizado justamente devido à acessibilidade. A parte superior ainda aguarda investimentos, porém, os “órfãos” do Ituano Clube podem visitar o local para atenuar a saudade.

Ituano Clube no passado – O Ituano Clube foi fundado em 15 de novembro de 1923, com um grupo de amigos que se reunia para jogar cartas. No início, o Clube funcionava em um imóvel alugado na praça Padre Miguel (da Matriz). Visando a construção de uma sede própria fundou-se a Sociedade Progresso e Melhoramentos de Itu para arrecadar fundos. O terreno da localização atual já havia sido comprado e então as obras da sede começaram. A inauguração do prédio aconteceu em 05 de julho de 1947. Em sua essência o Ituano Clube era um local de carteado, e permaneceu assim da década de 40 até final de 70. O Ituano Clube era frequentado apenas por seus sócios durante as décadas de 50, 60, 70 e meados de 80, e chegou a ter mais de 2.500 associados pagantes que utilizavam da estrutura do local como salas de carteado, salão e festas, biblioteca e dois cafés por noite.

Com o tempo algumas festas começaram a acontecer como o aniversário do clube, Réveillon, Baile do Havaí e o Carnaval. No início dos anos 90, com o surgimento das casas noturnas, o Ituano abriu para entrada de todas as pessoas, passando a cobrar entrada em uma portaria – perdendo a essência de Clube com associados. O declínio do local, então, começou e o último evento do Ituano Clube aconteceu em 2006.

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