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Arte de Ensinar

Por Giselli Mariano

Ser professor vai muito além de ter uma profissão, um diploma ou cargos em escolas. Apesar de ainda ser pouco valorizado por governos e pela sociedade, o educador é um formador de opinião e tem nas mãos a missão, o desafio e o poder de gerar grandes transformações políticas e sociais, a médio e longo prazo, não somente através do ensino de conteúdos técnicos e acadêmicos, mas, sobretudo, por meio da transmissão de conhecimentos para uma vida, como, por exemplo, os princípios éticos, os valores e o respeito ao próximo. Mas, para que essa “troca” aconteça de forma positiva e saudável, é preciso que o professor tenha, em primeiro lugar, amor por seu ofício e por seus alunos e, em segundo, o desejo de estudar, se preparar e evoluir continuamente.

O docente não apenas corrige provas e passa lições na lousa, mas é também aquele amigo que nos estende as mãos, desde a nossa infância até a faculdade, que está disposto a nos orientar e nos mostrar qual é o melhor caminho a seguir, e que certamente ficará guardado em nossas lembranças para sempre.

Nesta edição, a Singular conversou com alguns desses mestres, que fizeram e fazem a diferença no dia a dia de tantas pessoas, influenciando suas vidas através da incrível arte de ensinar. Nas próximas páginas, confira a reportagem completa.

 

Professora Celia

O sonho e a vocação para ser educadora fizeram com que Celia Werner Rodrigues Barsotti, 68, trilhasse um caminho natural, muito além da escolha. Graduada em Pedagogia, Estudos Sociais e História; e pós-graduada em Filosofia da História, possui quarenta e nove anos de profissão. “Como professora, já sou aposentada, porém, comecei a carreira como alfabetizadora e lecionei nos ensinos fundamental e médio, nas disciplinas de História, Geografia, Estudos Sociais, Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Educação Moral. Também fui vice-diretora de um colégio em Jundiaí; e diretora da escola estadual Pinheiro Junior, em Itu. Em 1989, juntamente com Maria Aparecida Manfredini Stuque, fundei o Colégio Integrado Monteiro Lobato, onde atualmente exerço a função de diretora”, conta.

Para Célia, a missão do professor em sala de aula não deve se restringir a ministrar apenas as disciplinas escolares, pois acredita que um verdadeiro educador deve preocupar-se com a formação integral dos estudantes, transmitindo valores éticos e morais, sempre respeitando a origem e o histórico familiar de cada um. “Educar é um trabalho da família e da escola. Deve haver consenso e ambos precisam caminhar juntos para que ocorra o desenvolvimento do educando. O grande desafio é reconhecer cada aluno como alguém único, dono de inúmeros potenciais e também de muitas dúvidas. Somente a partir desse profundo diagnóstico é que o educador pode desempenhar seu trabalho de forma adequada. O principal erro é negligenciar as diferenças individuais. Se esse acompanhamento não for bem realizado, penso que o aluno poderá levar suas dificuldades adiante, comprometendo todo o processo de aprendizagem. A educação é construída gradativamente e cada mínima parte possui importância”, destaca a diretora.

Sobre a questão dos direitos humanos e da diversidade cultural, ideológica, religiosa e socioeconômica existentes em uma mesma escola, professora Célia acredita que o melhor caminho seja a valorização do debate respeitoso e da reflexão crítica entre alunos e educadores, com o intuito de preparar crianças e adolescentes para a pluralidade que caracteriza a sociedade nos mais variados aspectos. Segundo ela, o contato com realidades diversificadas e o diálogo aberto, dentro e fora da sala de aula, são fundamentais para que os estudantes se tornem cidadãos íntegros, educados e tolerantes.

 

Professor Giácomo

Giácomo Augusto Bonetto, 45, lembra que sempre gostou de estudar e se destacava na escola. Já na faculdade, a proximidade com seus professores exerceu forte influência em sua escolha profissional, e quando começou de fato a dar aulas, apaixonou-se pelo ofício, seguindo carreira no magistério e no setor acadêmico. Licenciado em Matemática, além de ser especialista, mestre e doutor na área da Educação Matemática, Giácomo escreveu livros sobre Cálculo, em nível universitário, sendo o último intitulado “Fundamentos de Matemática para Engenharias e Tecnologias”, lançado neste ano, em coautoria com o professor Afrânio Murolo, pela editora Cengage Learning, presente em mais de dez países.

No total são vinte e cinco anos de profissão, atuando em diversas faculdades, em escolas, no ensino médio, e em vários cursos pré-vestibulares. Atualmente leciona no Colégio Anglo de Itu e de Salto, e no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP).

Para ele, a missão do educador é proporcionar aos alunos o acesso reflexivo ao conhecimento e à cultura, ajudando-os no desenvolvimento de suas potencialidades, para que possam ter maior autonomia em suas escolhas futuras, assumindo papéis de protagonismo social.

Ao analisar a situação educacional no Brasil, professor Giácomo acredita que esse setor nunca foi uma prioridade no país, e que grande parte da classe política e dos governos entende a cultura, a ciência e a tecnologia como sendo gastos e não como investimentos, o que, de certa forma, perpassa o imaginário popular. “Nessa perspectiva, temos no máximo políticas e esforços educacionais pontuais e em períodos de tempo estanques, de modo que o projeto educacional nacional tem idas e vindas, de acordo com a coligação partidária que está no poder. Não vejo educação, cultura e ciência em nosso país como um projeto estratégico e perene de uma nação, como fazem os países mais desenvolvidos e que dominam o cenário mundial. Como resultado, temos as mazelas indicadas pelos péssimos índices e resultados educacionais nos rankings internacionais”. Para ele, o maior desafio é que a educação seja de fato entendida como um dos valores primordiais do brasileiro, não apenas em discursos políticos eleitoreiros, demagógicos e vazios.

Na opinião do professor, essa maneira como a educação é vista na sociedade, gera, inclusive, a desmotivação dos estudantes em aprender e participar das aulas. “Creio que a falta de interesse dos alunos perpassa aspectos psicológicos e sociais mais amplos. Eles só terão interesse em lidar com as matérias e com os conteúdos, se aquilo tiver algum significado para eles, se de alguma forma vislumbrarem valor nisso. Talvez as mudanças devam ocorrer em outras esferas, com políticas públicas de real valorização do conhecimento”.

Mas, apesar de toda essa problemática, Giácomo afirma: “Vale a pena ser professor, pois o ato de lecionar nos leva à reflexão e nos transforma constantemente. Ao ensinar, oferecemos o nosso melhor aos alunos e isso é muito gratificante”, conclui.

 

Professor Pascale

Claudio Pascale, 70, começou a lecionar em 1967, após desligar-se da indústria Shell, onde atuou como analista por dois anos. Identificou-se tanto com a área da educação, que permanece nela até hoje, como diretor administrativo do colégio Almeida Júnior, em Itu, além de ser professor de Química Orgânica em faculdades e cursinhos pré-vestibulares. Graduado e licenciado em Química, com atribuições tecnológicas, Pascale já trabalhou em inúmeros colégios e cursos superiores da capital e do interior paulista.

Para ele, a principal missão do professor é contribuir com a formação do indivíduo, primeiro como ser humano, preparando-o para as adversidades da vida e, posteriormente, desenvolver seu conteúdo programático. “Somos formadores de opinião dos nossos alunos e, para isso, precisamos trabalhar de forma multidisciplinar. e imparcial, respeitando sempre os direitos e as diferenças de cada um”, explica.

Professor Pascale lembra que lecionou em uma turma de cursinho, em São Paulo, formada por aproximadamente 180 alunos. Em casos como este, de classes extremamente numerosas, ele acredita que as aulas devem ser ministradas de maneira diferenciada, associadas sempre a uma brincadeira, para que os estudantes prestem mais atenção. “Os educadores devem preparar as aulas de forma lúdica, desenvolvendo projetos que envolvem várias disciplinas num mesmo assunto. Essa atividade gera maior interesse pela matéria e faz com que a aprendizagem seja mais fácil. O mais importante é o professor trazer o estudante o mais próximo possível dele, numa relação de amizade”, completa.

No entanto, se mesmo assim o aluno estiver disperso, apresentar dificuldades para aprender e o professor não conseguir identificar a causa do problema, ele deverá encaminhá-lo a um profissional da área. “A escola precisa sempre trabalhar em parceria com sua equipe de profissionais. A direção, coordenação, professores e demais funcionários devem ter o mesmo princípio, o mesmo entendimento, buscando sempre o bem-estar dos alunos. Em minha opinião, o principal erro que o educador pode cometer é exceder sua conduta e gritar com os educandos. Ao fazer isso, o docente dará a liberdade para que seu aluno faça o mesmo com ele. Além disso, vale mencionar que a escola é a extensão da casa da criança e do adolescente, por isso ela deve atuar em parceria com a família. Dentro do ambiente escolar precisa haver continuidade do trabalho desenvolvido pelos pais. É por esse motivo que a escolha da escola certa é tão importante, permitindo um diálogo entre todos”, finaliza.

 

Professora Karina

Ao seguir os passos de sua mãe, que é educadora há cinquenta anos, Karina Bragagnolo de Souza Alvares Leite, 44, formou-se em Pedagogia e, durante nove anos, exerceu a função de professora, mas há oito trabalha como coordenadora do Berçário e da Educação Infantil, na Escola Vagalume / Colégio Lumen, em Itu, que são instituições de sua família.

Para Karina, sua missão consiste em ensinar e formar os pequeninos, para que se preparem para o futuro e se tornem adultos conscientes e saudáveis. Segundo ela, não basta apenas gostar de crianças, mas, além de toda a bagagem acadêmica, um pedagogo também precisa entender e saber conduzir as pessoas na fase mais importante de suas vidas: a infância, uma época de intensas descobertas sobre o mundo que as rodeia. “Acredito que, atualmente, os professores em geral acabam precisando transmitir a educação aos seus alunos, de maneira mais ampla, ensinando, inclusive, valores que deveriam ser passados pelos familiares. Na verdade, a função dos pais é educar, e da escola é promover a escolarização da criança, por isso ambos devem sempre trabalhar em parceria. Com isso, um dos maiores desafios da profissão, certamente é conseguir conciliar o lado pedagógico com as questões emocionais da criança”, explica Karina.

Quanto aos alunos maiores, do Ensino Fundamental, a pedagoga destaca a necessidade de realizar trabalhos em grupos e promover palestras que abordem temas reflexivos sobre direitos humanos e diversidade cultural, respeitando a individualidade e personalidade de cada um. “Com relação ao bullying, por exemplo, procuro orientar e conversar com os alunos, para que esse tipo de atitude não aconteça. Os casos mais sérios deverão sempre ser solucionados em conjunto com os familiares dos alunos envolvidos”.

De acordo com Karina, em sua escola tudo é feito em equipe, todas as semanas são realizadas reuniões, com o objetivo de decidir o dia a dia e resolver problemas gerais, referentes ao corpo docente e discente. “Se percebo que algum aluno apresenta qualquer dificuldade, seja através da observação diária ou de sondagens, trabalhamos com ele de forma diferenciada. Mas, se o problema persistir, investigamos a possível existência de outras defasagens, com o auxilio de demais profissionais”, explica.

Para finalizar, a coordenadora deu sua opinião sobre o contato dos alunos com a mídia: “É verdade que a internet pode ser utilizada nos estudos e pesquisas escolares, porém, é preciso que os adultos fiquem atentos, pois ela também pode influenciar de forma negativa a educação e os valores das crianças”.

 

Professora Raquel

Raquel Maria Carreri Araújo, 49, possui formação em magistério, com habilitação em pré-escola; além de ser graduada em pedagogia, supervisão escolar e psicopedagogia. Ao todo são trinta anos de carreira, passando por várias instituições de ensino da rede estadual e privada, lecionando em todas as séries. Ocupou, também, o cargo de diretora na escola pública, Lourenço Carmegnani. Ela conta que é polivalente, ou seja, leciona todas as disciplinas no quinto ano do ensino fundamental e, atualmente, trabalha no Colégio Divino Salvador, em Itu.

Para ela, a missão do professor na sociedade vai muito além de corrigir provas e preparar aulas. Consiste, na verdade, em ter o comprometimento e a certeza de todos os dias mudar positivamente a vida de alguém, fazendo parte da história de cada aluno. “Compartilhamos conhecimento, fazemos o aluno crescer, mostramos caminhos, estendemos as mãos. E para tudo isso é necessário criar vínculos, se aproximar e compreendê-lo. Creio que nunca estamos totalmente prontos, é uma busca constante, mas isso depende do empenho de cada profissional”.

Segundo Raquel, o sistema educacional deveria valorizar, sobretudo, a educação infantil e as primeiras séries do ensino fundamental, já que é nessa fase que se forma a personalidade das pessoas. “Se elas começam a fracassar nesta etapa da vida, todo o percurso escolar será acidentado e se tornará mais difícil de resgatá-lo”, acredita.

Ainda sobre o processo educacional, a pedagoga explica que é preciso respeitar o tempo de cada indivíduo. O desenvolvimento humano é constante, mas cada um tem o seu ritmo. “Minha filosofia de trabalho é baseada nos valores cristãos e traço com eles esse caminho de respeito mútuo e amor ao próximo. Conversamos sempre sobre atitudes e comportamentos que nos fazem bem, em busca de um mundo melhor. Levo à reflexão das atitudes que foram negativas e evidencio as positivas. Assim trabalho todos os problemas que surgem, como descriminação, bullying, questões religiosas, entre outras”.

Sobre a indisciplina e o desinteresse nas aulas, Raquel conta que a primeira atitude a ser tomada deve ser baseada no amor e no diálogo. “Quando o aluno percebe que você se importa com ele, gosta dele, vibra com suas conquistas, a indisciplina acaba. Já a falta de interesse e participação nas aulas, costumo resolver através de muita conversa, pois o estudante precisa adquirir consciência do intuito das tarefas e de sua responsabilidade. Muitas vezes deixa de fazer algo para agredir os professores e os pais, e esquecem que os únicos prejudicados são eles mesmos. Temos que ter paciência e dedicação. Não acredito que apenas punindo, vamos mudar essa situação. A punição traz mudanças momentâneas e irreais. Devo salientar que as atitudes positivas das crianças, merecem maior destaque, pois, muitas vezes, só enaltecemos o lado negativo e acabamos reforçando esse tipo de comportamento”.

 

Professora Luana

Apesar da pouca idade e de ter iniciado sua carreira na área da educação há quatorze anos, Luana Amoroso Daniel, 33, é graduada em Letras, com habilitação em Português e Inglês; formada em Marketing, pós-graduada em Gestão de Instituições de Ensino e mestre em Educação. Atualmente trabalha no Colégio Branta Institute, como professora de Gramática do sexto ano do fundamental II ao terceiro do ensino médio; e ocupa o cargo de coordenadora pedagógica do ensino fundamental II.

Além de ter dado aulas em escolas particulares, Luana lecionou na rede estadual durante dez anos, nas disciplinas de Português e Inglês, no ensino fundamental II e médio.

“Escolhi ser professora porque acredito que o magistério seja uma das atividades mais bonitas, apaixonantes e gratificantes que existem. Sem dúvidas é árdua, mas indescritivelmente bela. Não há nada mais compensador do que poder conhecer socialmente e academicamente cada discente, transmitir e receber conhecimentos, criar laços, ver o desenvolvimento e contribuir para que ele se dê de forma prazerosa. Eu me divirto dando aulas. Ouço meus alunos, compartilho experiências, rimos todos juntos. Acredito no que faço e no potencial que cada um tem para transformar a sua própria realidade”, diz Luana. Segundo ela, o docente é uma mistrura de pai, psicólogo, fonoaudiólogo, amigo e conselheiro. “O contexto da sala de aula nos permite mergulhar nessas funções de maneira tão normal e auxiliar os nossos discentes. Um professor mal formado pode acarretar uma péssima educação aos alunos, em todos os âmbitos. Uma aula mal preparada pode resultar em problemas na educação”. Em sala de aula, Luana deixa claro que todos os indivíduos precisam ter sua dignidade garantida, o que implica no direito a ter opinião, liberdade, identidade, acesso a educação, cultura e saúde. “Também me posiciono diante dos fatos e me mostro preocupada com o destino do mundo. Busco referências para ter respaldo na temática. Realizo dinâmicas que permitam que os estudantes transitem em lugares favoráveis e de oposição”, explica.

Sobre o contato de crianças com assuntos relacionados à nudez ou a sexualidade, a professora diz o seguinte: “Conhecer, analisar, discutir, negociar e escolher o entretenimento dos filhos é dever e direito dos pais e responsáveis. Crianças e adolescentes estão em desenvolvimento e precisam de ajuda, tanto para selecionar, quanto para compreender aquilo que assistem. Sabemos que a criança tem contato com a nudez desde que nasce. Seja no momento da amamentação, no seio, ou brincando no banho com outras crianças, primos e em momentos de troca de fralda na creche. A nudez em si é uma informação importante para a criança entender como funciona o próprio corpo, seja dos seus pares ou de adultos, porém, ela não pode ser empregada de maneira sexual em ambientes públicos. Acredito que exista idade certa para todas as coisas e quando isso é afetado, o todo também padece”, conclui.

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