Persona

Os desafios da educação

Por Giselli Mariano

A ituana Maria de Fátima Cintra Limongi, 56, lembra que iniciou sua carreira na área da educação aos quinze anos de idade, como assistente de professora, em uma escola da zona rural, e hoje é graduada há mais de trinta anos em Pedagogia, com habilitação em Administração Escolar, Didática, Psicologia e Sociologia da Educação. Ao longo de sua jornada cursou piano, dança, equoterapia e, ao trabalhar no terceiro setor como professora de dança para especiais, sentiu a necessidade e o desejo de aprofundar-se mais. Foi quando se especializou em Psicopedagogia Clínica, em 2007 e, dois anos depois, em Dislexia e Transtorno de Déficit de Atenção. Em 2013 cursou Neuro Aprendizagem, Transtornos do Aprender, Docência do Ensino Superior e há pouco tempo fez a especialização em TDAH. Maria de Fátima também exerce o cargo de coordenadora na área de inclusão, nas escolas, dando orientações e ministrando palestras aos familiares, professores, coordenadores e alunos; e atua na área clínica, com habilitação e reabilitação cognitiva em todas as idades, inclusive atendendo gestantes e famílias em geral, por acreditar que a formação de um indivíduo, inclusive emocional e psicológica, começa a partir da vida intrauterina

Além de ser neuropsicopedagoga, Maria de Fátima também é mãe de um casal de filhos, de 34 e 31 anos; e avó de duas meninas, uma de três anos e outra de apenas dois meses de idade. “Criei meus filhos sob uma educação permeada de amor e respeito. Já minhas netas, ainda que eu esteja inserida e completamente envolvida no processo de avaliações e intervenções da aprendizagem, procuro emitir opiniões quando sinto que meus filhos me pedem. Além disso, tenho firmeza e ciência dos ensinamentos que transmiti a eles ao longo da vida, especialmente enquanto ainda estavam em formação no meu ventre”, conta.

A seguir, confira uma entrevista exclusiva sobre os desafios que envolvem o processo da educação.

Singular: Em sua opinião, quais são os maiores desafios na tarefa de educar?
Maria de Fátima: Os seres humanos têm a sua singularidade, portanto é impossível vê-los apenas como uma massa pensante. Considero um dos maiores desafios, o próprio meio em que as crianças estão inseridas atualmente, com uma quantidade absurda de informações, com exigências muitas vezes acima das próprias possibilidades. Em virtude desses excessos informativos, vindos especialmente da tecnologia, as crianças sofrem uma dificuldade atencional significativa, além de possíveis comorbidades comportamentais. Os pais, por sua vez, desejosos de estarem inseridos nesse contexto, passam várias horas nas redes sociais, “se atualizando”, sendo que poderiam estar compartilhando experiências com seus filhos. Não sou contra as informações, mas todas as coisas, para serem saudáveis, devem seguir um padrão e uma orientação.

Singular: A responsabilidade pelos problemas psicológicos e emocionais apresentados na infância, é sempre dos pais e dos envolvidos na educação da criança?
Maria de Fátima: Sim, há uma importância significativa das relações intrafamiliares e futuras relações sócio culturais, na formação e desenvolvimento da criança como um todo, especialmente no âmbito da saúde emocional. A criança se faz como uma “esponja”. Além de buscar identificação com seu meio, decifra ou deseja adivinhar os menores desejos dos adultos, para, ainda em meio às suas impossibilidades, suprir as necessidades destas pessoas significativas que a rodeiam. É relevante citar que as relações vividas pela criança, desde a vida intrauterina, estabelecem as experiências, que são as responsáveis pelas modificações nas redes neurais, ou seja, a cada experiência, as células nervosas formam novas conexões e expressão química diferenciada.

Singular: De quem é a função de educar, dos pais ou da escola?
Maria de Fátima: A meu ver as duas esferas se complementam. Quando uma criança tem seu desenvolvimento pautado na cumplicidade de uma família saudável, produzirá frutos doces até sua velhice. É de suma importância considerar que o processo para uma aprendizagem normal está condicionado à integridade de funções específicas cerebrais. Isso significa que cada região do nosso cérebro é responsável por uma função, e a interconectividade adequada destas regiões, produzirá uma aprendizagem eficaz. Dentre elas está a memória, a percepção visual e auditiva, a integralização das funções e a emoção. Esta última produz um resultado surpreendente, pois crianças que sofrem ou sofreram entraves em suas vidas, considerando desde o período pré-natal e da pré-concepção, se negam a aprender, ainda que tenham possibilidades para tal.

Singular: Em sua opinião, quais os principais erros que podem ser cometidos pelos pais e familiares na educação dos filhos?
Maria de Fátima: Há uma premissa errônea de que se pode delegar a educação das crianças às escolas, à TV, aos aparelhos eletrônicos, às babás, às avós, e tantos outros meios. Entendo que atualmente faz-se necessário a contribuição dos dois, pai e mãe, na complementação da renda familiar, contudo, é indispensável reservar momentos saudáveis junto à família. Tenho observado pais que barganham suas ausências com permissividade excessiva, e crianças que não têm limites, não se sentem amadas.

Singular: Sabemos que cada criança é única, mas existem técnicas que podem ser aplicadas ao processo de educação de todas elas?
Maria de Fátima: Tenho como característica em minhas intervenções uma obra maravilhosa chamada “perdão”, ou seja, a reconstituição de fatos ocorridos. Os pais precisam ter a humildade de reconhecer as falhas que, muitas vezes, são praticadas sem nenhuma intenção, mas que causam dores incomensuráveis para a alma, local onde se alojam os sentimentos. Ao consertar essas falhas, ocorre uma modificação no “mapa neural”, resultando, assim, em uma alteração benéfica de comportamento.

Singular: De que forma um psicólogo ou um terapeuta pode contribuir com a educação da criança?
Maria de Fátima: É primordial o trabalho de uma equipe multidisciplinar, quando se observa dificuldades no âmbito pedagógico ou comportamental das crianças. Como profissional na área da neuroaprendizagem, normalmente começo por uma criteriosa anamnese, ou seja, pelo colhimento e acolhimento da história familiar, abarcando os períodos da concepção, pré-natal, perinatal e pós-natal, até os dias atuais da criança, seguindo para um período avaliativo, que possa sugerir as causas para os sintomas apresentados. É necessário encontrar o diagnóstico assertivo, não com o intuito de rotular a criança, mas sim de amenizar seu sofrimento e as possíveis comorbidades que podem ser devastadoras em um futuro próximo.

Singular: Qual a sua opinião sobre o contato de crianças com os assuntos: nudez e sexualidade?
Maria de Fátima: Porventura vemos um bebê comer carne ou qualquer alimento sólido, sem que lhe cause prejuízos? Pois então, cada coisa, cada informação ao seu tempo. Não sou a favor de oferecer informações que os infantes não possam argumentar, especialmente por não possuírem subsídios suficientes para tal. Estamos vivendo em um período de liberdade ou de imposição?

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